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Pierre Jadoul, gestor responsável pela estratégia de crédito privado da ARX comenta sobre os spreads baixos e aumento da demanda.
22/03/2019 14:43:39 - AE NEWS

ESPECIAL: SPREADS BAIXOS E DEMANDA FORTE ELEVAM CAUTELA DE GESTORES COM CRÉDITO PRIVADO

São Paulo, 22/03/2019 - A demanda recente por fundos de crédito privado comprimiu os spreads a ponto de exigir maior cautela dos gestores e um gerenciamento mais criterioso de passivo e ativo. Em algumas casas, os baixos retornos nos títulos corporativos contribuiu para o fechamento de fundos para captação. "Começam a surgir no mercado algumas emissões com taxas tão comprimidas que não valem o risco", afirma o sócio da nova Devant Asset Bruno Eiras.
Na ARX Investimentos, o gestor Pierre Jadoul entende que há taxas "amassadas demais". "Por conta disso, ficamos de fora de algumas operações que achamos que não valem o risco", afirma Jadoul. Essas operações, segundo o gestor, eram de emissores considerados "bons pagadores", como a Petrobras. O investimento, entretanto, não valia a pena porque o retorno oferecido era muito baixo, na avaliação do gestor da ARX. A mesma cautela tem os profissionais da Sparta: "Ficamos de fora de metade das emissões que queríamos porque a taxa era inadequada", afirma o gestor Ulisses Nehmi.
A compressão dos spreads dos títulos corporativos é visível tanto na oferta primária quanto no mercado secundário. O sócio da Devant Asset comenta que a melhora macroeconômica do Brasil e o aumento na demanda compradora provocaram a queda abrupta de algumas taxas. Ele dá como exemplo a Arteris. A empresa fez uma emissão em 2017 pagando CDI mais 1,60%. "Hoje em dia, esse papel está a CDI mais 0,85% no mercado secundário. E se a oferta fosse feita hoje, a empresa pagaria algo em torno de 1,10% de taxa", afirmou Eiras.
Na Sparta, o fundo de crédito privado está fechado para captação. "Fechamos o fundo [no ano passado] por entender que, no período de eleição, não teria emissão, algo que normalmente acontece. Algumas empresas anteciparam e outras adiaram [as emissões]", afirmou Nehmi. "Vemos vários emissores alongando os prazos dos novos títulos, as taxas fechando, o que, naturalmente, aumenta o 'budget' de risco no mercado. Nesse contexto, é preciso ser mais cauteloso, mais criterioso", afirma o gestor da Sparta, que tem cerca de R$ 6 bilhões sob gestão, 99% desse total em crédito privado.
Na AZ Quest, onde cinco dos seis fundos de crédito privado estão fechados para captação, o gestor Laurence Mello comenta que tem feito rodízio dos títulos em carteira sempre que surgem oportunidades. "Como os fundos estão fechados para captação, não preciso aumentar o risco da carteira", diz o gestor da AZ Quest, que tem R$ 9 bilhões sob administração.
Uma das formas de gerenciar o risco das carteiras dos fundos é pulverizar tanto o ativo (o número e a qualidade dos emissores) quanto o passivo (o perfil e a quantidade de cotistas), além de administrar o "duration" das carteiras (ou seja, buscar um prazo médio razoável em termos de risco e retorno). Na Sparta, os fundos investem em cerca de 150 emissores. Na ARX, são 95.
Na Devant Asset, criada em 2018, o maior dos quatro fundos de crédito privado em patrimônio conta com 8 mil cotistas. Trata-se do Solidus, que o gestor e os sócios criaram há três anos dentro da empresa de wealth management que pertence à mesma holding da asset. "Meu maior cotista tem 7% do fundo. Então, se ele debandar, não vai machucar a cota. Além disso, 70% do patrimônio está com cotistas com menos de 0,20% de participação, e mantemos um caixa mínimo entre 30% e 35%", afirmou Eiras. Na Sparta, as cotas dos fundos estão distribuídas entre 50 mil cotistas.
Essa pulverização, tanto do ativo quanto do passivo, ajuda a mitigar o "grave risco", como classifica um profissional de uma grande gestora, de "descasamento" entre as duas pontas. Para esse gestor, qualquer susto no mercado de títulos de dívida corporativa irá provocar uma debandada dos cotistas. "Com a queda na rentabilidade provocada pela Selic baixa, o investidor está saindo das opções conservadoras e indo para fundos de crédito privado por entender que o risco é baixo. Mas não é bem assim. Não tenho 'default' em vista, mas um soluço vai assustar o investidor", diz o gestor.


 DESBANCARIZAÇÃO


A distribuição das cotas entre milhares de pessoas só foi possível, segundo as gestoras, por causa da "desbancarização" do brasileiro. O fenômeno de saída do investidores dos bancos para aplicar através de plataformas eletrônicas justifica a facilidade em não concentrar as cotas em poucas mãos e também no interesse crescente por esse tipo de fundo. "Esse movimento deve continuar. Nada aponta na direção contrária. O investidor que sai de uma LCI, LCA ou alguma outra aplicação mais conservadora de um banco acaba preferindo um fundo de investimento", diz Jadoul, da ARX Investimentos.
Entre todos os subtipos da Anbima para renda fixa, os fundos que têm crédito privado no nome registraram captação líquida nos dois primeiros meses de 2019, depois de fecharem 2018 e também os 24 meses encerrados em dezembro no positivo. Em meio a resgates líquidos em categorias de renda fixa conservadoras, o feito tem uma importante justificativa macroeconômica: o Brasil nunca conviveu com uma taxa básica de juros tão baixa, por tanto tempo e com a perspectiva de manter-se em um dígito por algum período à frente. Em busca de maior retorno, o investidor aceita assumir risco maior do que o dos títulos públicos e migrar parte ou toda carteira de títulos públicos para renda fixa corporativa.
Esse cenário deve persistir juntamente com a perspectiva para a macroeconomia, reforçada pela esperada reforma da Previdência e uma melhora da microeconomia, segundo gestores. "Estamos animados. As empresas melhoraram as métricas de crédito. O BNDES virou um fomentador do mercado de capitais e não mais um financiador final. Acabaram os subsídios, com a substituição da TJLP pela TLP", afirma Nehmi, da Sparta. Além disso, o gestor da Sparta afirma que, para os bancos, ficou mais interessante trabalhar na estruturação do que dar crédito após a implementação de Basileia III.



(Karla Spotorno - karla.spotorno@estadao.com)

 

A notícia foi publicada pela Agência Estado no dia 22/03/2019.